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Menopausa

Perimenopausa: os sinais que começam antes dos 45 anos e por que o exame de FSH engana

A perimenopausa é a transição de alguns anos que antecede a última menstruação, e costuma começar na faixa dos 40 anos. Os primeiros sinais são ciclos irregulares, sono pior, oscilações de humor, ondas de calor e dificuldade de concentração. O diagnóstico é clínico, porque os hormônios oscilam e um FSH normal não exclui a fase.

A menopausa é, tecnicamente, um único dia: o da última menstruação, reconhecido em retrospecto depois de doze meses sem sangramento. O que muitas mulheres sentem como "menopausa" começa bem antes, às vezes cinco ou mais anos antes. Essa fase de transição se chama perimenopausa, e é nela que os sintomas costumam ser mais intensos e mais confusos, justamente porque os hormônios não caem de forma linear. Eles oscilam.

O que acontece no corpo na perimenopausa?

Com o passar dos anos, o número de folículos nos ovários diminui. Os que restam respondem de forma menos previsível ao comando da hipófise, que passa a liberar mais FSH para tentar manter a ovulação. O resultado é um padrão irregular: em alguns ciclos o estradiol sobe acima do habitual, em outros quase não há produção, e a ovulação se torna intermitente. A progesterona, que só é produzida de forma relevante depois da ovulação, costuma ser a primeira a cair.

Essa instabilidade explica por que a mesma mulher pode ter num mês sangramento intenso e seios doloridos, sinais de estrogênio alto sem oposição da progesterona, e no mês seguinte ondas de calor e insônia, sinais de estrogênio baixo.

A duração dessa fase é variável. Em algumas mulheres a transição se completa em poucos anos, em outras se estende por quase uma década. Tabagismo, cirurgias ovarianas prévias, quimioterapia e histórico familiar de menopausa precoce tendem a antecipar o processo. Conhecer a idade em que a mãe e as irmãs pararam de menstruar é uma informação útil para a consulta.

Quais são os primeiros sintomas da perimenopausa?

Os sintomas variam muito de intensidade, e nem todas as mulheres têm todos. Os mais frequentes são:

  • Ciclos irregulares. É o marcador mais objetivo. O sistema de estadiamento STRAW+10, publicado em 2012, define o início da transição como uma diferença persistente de sete dias ou mais na duração de ciclos consecutivos. Intervalos de 60 dias ou mais sem menstruação indicam a fase tardia. O fluxo também pode mudar, ficando mais intenso ou mais escasso.
  • Sono pior. Dificuldade para manter o sono, despertares de madrugada e sono pouco reparador. Os suores noturnos contribuem, mas a insônia pode aparecer mesmo sem eles.
  • Humor. Irritabilidade, ansiedade e piora da tensão pré-menstrual. A perimenopausa é reconhecida como um período de maior vulnerabilidade a sintomas depressivos, inclusive em mulheres sem histórico prévio.
  • Ondas de calor e suores noturnos. Podem surgir ainda com menstruações regulares. São causados pela instabilidade do centro de regulação térmica no hipotálamo, sensível às oscilações do estrogênio.
  • Névoa mental. Dificuldade de encontrar palavras, de manter a concentração e de lembrar compromissos. Dados do estudo SWAN mostraram uma redução discreta e temporária em testes de memória e velocidade de processamento durante a transição, com tendência de recuperação depois. Não é sinal de demência.
  • Ganho de gordura abdominal. Mesmo sem mudança de hábitos, a distribuição de gordura se desloca para o abdome.

Outros sinais comuns incluem dores articulares, palpitações, queda da libido, secura vaginal e piora de enxaquecas ligadas ao ciclo.

Por que se ganha peso na perimenopausa?

A análise do estudo SWAN sobre composição corporal, publicada por Greendale e colaboradores na revista JCI Insight em 2019, mostrou que a aceleração do ganho de gordura e a perda de massa magra começam cerca de dois anos antes da última menstruação. Ou seja, a mudança acontece em plena perimenopausa, e não depois.

O mecanismo envolve a queda do estrogênio, que favorece o depósito de gordura visceral, a perda de massa muscular, que reduz o gasto energético de repouso, e a piora do sono, que aumenta o apetite. Essa gordura visceral se associa à resistência à insulina, o que ajuda a entender por que estratégias que funcionavam aos 35 anos deixam de funcionar aos 45. O treino de força ganha importância especial nessa fase, porque atua diretamente contra a perda de massa muscular.

Por que o exame de FSH isolado engana?

É comum a mulher chegar ao consultório com sintomas típicos e um exame de FSH "normal", ouvindo que ainda não está na perimenopausa. O raciocínio é compreensível, mas está errado. Como os hormônios oscilam, uma única dosagem reflete apenas o dia da coleta. O FSH pode estar elevado numa semana e normal na seguinte, e o estradiol pode estar até acima do esperado.

Por esse motivo, a diretriz NG23 do National Institute for Health and Care Excellence, do Reino Unido, recomenda diagnosticar a perimenopausa pelos sintomas e pelo padrão menstrual em mulheres acima de 45 anos, sem necessidade de exames hormonais. O FSH tem papel em situações específicas: mulheres de 40 a 45 anos com sintomas atípicos e, principalmente, mulheres com menos de 40 anos em que se suspeita de insuficiência ovariana prematura. O hormônio antimülleriano reflete a reserva ovariana, mas também não determina com precisão quando a menopausa vai acontecer.

Exames continuam importantes, mas para outro objetivo: afastar condições que imitam a perimenopausa. Alterações da tireoide, anemia por perda menstrual intensa, deficiências de vitamina D e B12, aumento da prolactina e gravidez precisam ser consideradas. Em mulheres com sangramento intenso e ferritina baixa, a reposição de ferro, inclusive por via endovenosa em casos selecionados, é discutida no texto sobre ferro na veia.

A perimenopausa tem tratamento?

Tem, e a escolha depende dos sintomas predominantes, do desejo de contracepção e do perfil de risco de cada mulher. Para sintomas vasomotores e de sono, a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz, e as indicações e contraindicações estão detalhadas no texto sobre reposição hormonal na menopausa. Para quem precisa de contracepção e regularização do sangramento, alguns métodos hormonais resolvem os dois problemas. Há também opções não hormonais com evidência para ondas de calor, indicadas quando os hormônios são contraindicados. Sono, atividade física e treino de força entram em todos os planos.

Um ponto prático: enquanto houver menstruação, ainda pode haver ovulação. A gravidez é possível na perimenopausa, e a contracepção deve ser mantida por quem não deseja engravidar.

Quando procurar avaliação médica

Procure avaliação se os ciclos passaram a variar mais de uma semana entre si, se o sangramento ficou muito intenso, com coágulos ou necessidade de trocar o absorvente a cada uma ou duas horas, se há sangramento entre as menstruações ou depois da relação, se o sono ou o humor mudaram de forma persistente, ou se as ondas de calor interferem no trabalho. Mudanças menstruais antes dos 40 anos, sintomas depressivos intensos e qualquer sangramento depois de um ano sem menstruar pedem avaliação sem demora.

Na MedInfuse, a avaliação da perimenopausa começa pela história clínica e menstrual detalhada, e não por um exame isolado. O painel laboratorial amplo serve para afastar outras causas e avaliar o metabolismo, e a bioimpedância acompanha as mudanças na composição corporal. Com essas informações, o tratamento é definido de forma individualizada, dentro de um plano de acompanhamento com reavaliações que permitem ajustar a conduta à medida que a transição avança.

A perimenopausa não é uma fase a ser apenas tolerada. Entender que os sintomas têm causa, e que essa causa é reconhecível pela clínica mesmo quando o exame vem normal, é o primeiro passo para tratá-los bem.

Perguntas frequentes

Na maioria das mulheres, os primeiros sinais aparecem na faixa dos 40 anos, alguns anos antes da última menstruação, que costuma ocorrer em torno dos 50 anos. Há grande variação individual. Ciclos que se tornam irregulares antes dos 40 anos pedem investigação específica para insuficiência ovariana prematura e outras causas.

Não. Na perimenopausa, o FSH e o estradiol oscilam muito de um ciclo para outro e até de uma semana para outra, e um resultado normal pode ter sido colhido num momento de função ovariana preservada. Por isso a diretriz do NICE recomenda que, depois dos 45 anos, o diagnóstico seja baseado nos sintomas e no padrão menstrual.

Sim. Mesmo com ciclos irregulares, ainda há ovulações, e a gravidez é possível até que se complete um ano sem menstruação após os 50 anos, ou dois anos antes dos 50, segundo as orientações mais usadas. Quem não deseja engravidar deve manter um método contraceptivo e discutir com o médico qual é o mais adequado nessa fase.

A duração varia muito. No estudo SWAN, que acompanhou mulheres americanas de diferentes origens, a duração mediana dos sintomas vasomotores frequentes foi de 7,4 anos, e foi mais longa nas mulheres em que os sintomas começaram ainda na perimenopausa.

Saiba como cuidamos disso na clínica: Menopausa e reposição hormonal.

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Referências

  1. Harlow SD et al. Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop +10: addressing the unfinished agenda of staging reproductive aging. Menopause, 2012;19(4):387-395
  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Menopause: identification and management, guideline NG23. 2015, atualizada em 2024
  3. Avis NE et al. Duration of menopausal vasomotor symptoms over the menopause transition. JAMA Internal Medicine, 2015;175(4):531-539
  4. Greendale GA et al. Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight, 2019;4(5):e124865
  5. The North American Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause, 2022;29(7):767-794

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Não inicie, altere ou interrompa tratamentos sem orientação do seu médico.

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