Poucos medicamentos mudaram tão depressa a conversa sobre obesidade quanto as chamadas canetas emagrecedoras. A semaglutida (nomes comerciais Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) mostraram, em estudos rigorosos, uma eficácia que a medicina buscava havia décadas. Essa mesma eficácia gerou uso sem indicação, compra por conta própria e expectativas que os dados não sustentam. Entender como esses medicamentos agem é o primeiro passo para usá-los bem.
Como agem as canetas emagrecedoras?
O intestino produz hormônios que avisam o cérebro e o pâncreas que uma refeição chegou. O mais conhecido é o GLP-1. Ele estimula a liberação de insulina quando a glicose sobe, reduz o glucagon, retarda o esvaziamento do estômago e atua em regiões do cérebro que regulam a fome e a recompensa ligada à comida. O GLP-1 natural dura poucos minutos no sangue. As moléculas das canetas foram modificadas para durar cerca de uma semana.
O resultado prático é saciedade mais precoce, menos fome entre as refeições e, para muitos pacientes, menos pensamento constante sobre comida. A perda de peso vem principalmente da redução espontânea da ingestão, não de um aumento do gasto de energia.
Qual a diferença entre semaglutida e tirzepatida?
A semaglutida ativa apenas o receptor de GLP-1. A tirzepatida ativa também o receptor de GIP, outro hormônio intestinal envolvido no metabolismo da glicose e da gordura. Os estudos de registro dão a dimensão do efeito:
- No estudo STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, adultos com obesidade ou sobrepeso tratados com semaglutida perderam em média cerca de 15% do peso em 68 semanas, contra 2,4% no grupo placebo.
- No estudo SURMOUNT-1, publicado na mesma revista em 2022, a tirzepatida levou a perdas médias entre 15% e 21% em 72 semanas, conforme a dose, contra 3,1% no placebo.
Médias escondem variação. Parte dos pacientes perde muito mais, e outra parte responde pouco. Além do peso, o estudo SELECT, publicado em 2023, mostrou que a semaglutida reduziu em cerca de 20% os eventos cardiovasculares graves em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem diabetes. É um dado importante, porque mostra benefício que vai além da balança.
Quem tem indicação para usar?
Para controle de peso, a indicação em bula é para adultos com índice de massa corporal a partir de 30, ou a partir de 27 quando existe ao menos uma doença relacionada ao excesso de peso, como hipertensão, diabetes tipo 2, alterações do colesterol ou apneia do sono. O uso é sempre associado a mudanças na alimentação e na atividade física. Também há indicações específicas para o diabetes tipo 2, com outras apresentações.
Há situações em que o uso é contraindicado ou exige muita cautela:
- Gestação, amamentação ou intenção de engravidar em breve.
- História pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
- História de pancreatite.
- Doenças que já retardam o esvaziamento do estômago, como a gastroparesia.
- Transtornos alimentares, que precisam de abordagem própria.
Perder poucos quilos por razão estética não é indicação. O risco, nesse caso, supera qualquer benefício esperado.
Quais são os efeitos colaterais?
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais: náusea, vômitos, diarreia, prisão de ventre, refluxo e sensação de estômago cheio. Costumam ser mais intensos no início e a cada aumento de dose, e tendem a melhorar com o tempo. Esse é um dos motivos pelos quais o médico ajusta a dose de forma gradual.
Outros riscos são menos frequentes, mas exigem atenção:
- Vesícula biliar: a perda rápida de peso aumenta o risco de cálculos e inflamação da vesícula.
- Pancreatite: rara, mas grave.
- Desidratação e lesão renal: vômitos e diarreia intensos, somados à menor ingestão de líquidos, podem comprometer a função dos rins.
- Hipoglicemia: sobretudo em quem usa insulina ou outros remédios que baixam a glicose.
- Retinopatia diabética: em pessoas com diabetes, a melhora muito rápida da glicose pode piorar lesões preexistentes na retina.
- Anestesia: o estômago pode conter alimento mesmo após o jejum habitual, por isso o anestesista precisa saber do uso antes de qualquer procedimento.
Agências reguladoras também acompanham sinais raros, como uma forma de perda súbita de visão por lesão do nervo óptico, já listada como efeito muito raro da semaglutida na Europa. Esse tipo de vigilância continua, e é mais um motivo para o uso supervisionado.
As canetas fazem perder massa muscular?
Toda perda de peso inclui gordura e massa magra, e com as canetas não é diferente. Em subestudos que mediram a composição corporal, uma parcela relevante do peso perdido correspondeu a massa magra. Ainda se discute quanto disso representa perda de função, mas o tema preocupa especialmente em pessoas mais velhas, em quem o músculo já é escasso.
O músculo importa para força, equilíbrio, controle da glicose e manutenção do peso. A proteção vem de três frentes: ingestão adequada de proteína, mesmo com o apetite reduzido, treino de força regular e acompanhamento da composição corporal por bioimpedância, que mostra se a perda está vindo da gordura ou do músculo. O artigo sobre perda de massa muscular aprofunda o assunto.
O que acontece quando se para de usar?
Esse é o ponto que mais surpreende os pacientes. Na extensão do estudo STEP 1, publicada em 2022, um ano após a suspensão da semaglutida os participantes haviam recuperado, em média, cerca de dois terços do peso perdido. No estudo SURMOUNT-4, publicado no JAMA em 2024, quem trocou a tirzepatida por placebo recuperou parte importante do peso, enquanto quem manteve o tratamento continuou perdendo.
Isso não significa que o medicamento falhou. Significa que a obesidade é uma doença crônica, e que o efeito dura enquanto o tratamento dura, como acontece com remédios para pressão ou colesterol. A decisão sobre manter, reduzir ou suspender deve ser planejada, com estratégia de manutenção definida antes. Os mecanismos que levam ao reganho são explicados em por que o peso volta depois da dieta.
Por que não usar sem acompanhamento médico?
O uso por conta própria acumula riscos que o acompanhamento evita. Ninguém confirma a indicação nem exclui contraindicações. O ajuste de dose é feito sem critério, o que aumenta os efeitos colaterais. Não há atenção à proteína, ao músculo e à hidratação. E não existe plano para quando o medicamento for interrompido.
Há também o problema da origem do produto. A Anvisa já emitiu alertas sobre canetas falsificadas e sobre versões de procedência irregular, cujo conteúdo e dose não podem ser garantidos. Desde 2025, a venda desses medicamentos nas farmácias exige retenção da receita. Comprar fora dos canais regulares é expor-se a riscos que nenhum resultado justifica.
Quando procurar avaliação médica
Quem usa ou pensa em usar esses medicamentos deve procurar atendimento médico nas seguintes situações:
- Dor abdominal forte e persistente, que pode irradiar para as costas.
- Vômitos que impedem a hidratação, ou redução importante do volume de urina.
- Dor do lado direito do abdome com febre ou pele e olhos amarelados.
- Perda súbita de visão, ou um nódulo novo no pescoço.
- Tremores, suor frio e confusão em quem também usa remédios para diabetes.
- Planejamento de gestação ou cirurgia programada.
Na MedInfuse, a discussão sobre esses medicamentos começa pela avaliação clínica e por painel laboratorial amplo, com bioimpedância e calorimetria indireta para conhecer a composição corporal e o gasto de energia de cada paciente. Quando há indicação, o medicamento entra como parte de um plano de acompanhamento que inclui alimentação, treino de força e reavaliações periódicas, com atenção à preservação do músculo.
As canetas são uma ferramenta valiosa no tratamento da obesidade. Como toda ferramenta potente, funcionam melhor nas mãos certas, com indicação clara e um plano para o longo prazo.
