Muitas mulheres passam anos ouvindo que o volume das pernas é falta de disciplina. Fazem dieta, emagrecem no rosto e na cintura, e as pernas continuam praticamente iguais, doloridas e marcadas por manchas roxas. Esse padrão tem nome. O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo, descrita em 1940 por Edgar Allen e Edgar Hines, na Clínica Mayo, e hoje reconhecida pela Organização Mundial da Saúde.
Reconhecer o lipedema exige olhar para além da balança. O que define a doença não é a quantidade de gordura, mas onde ela se acumula, como se comporta ao toque e como responde ao emagrecimento.
O que é lipedema?
O lipedema é um acúmulo simétrico e desproporcional de gordura sob a pele, quase sempre nas pernas e, em parte das pacientes, também nos braços. Atinge quase exclusivamente mulheres e costuma começar ou piorar em fases de mudança hormonal, como a puberdade, a gestação e a perimenopausa. A história familiar é frequente, o que sugere um componente genético ainda não totalmente esclarecido.
O tecido afetado não se comporta como gordura comum. Estudos mostram células de gordura aumentadas, sinais de inflamação de baixo grau, maior fragilidade dos pequenos vasos e acúmulo de líquido entre as células. Esse conjunto ajuda a explicar a dor, os hematomas fáceis e a resistência dessa gordura à restrição calórica. As causas exatas, porém, continuam em investigação.
Quais são os sinais do lipedema?
Os achados mais típicos, descritos de forma consistente na literatura e nos consensos internacionais, são estes:
- Desproporção: tronco e cintura relativamente finos, com quadris, coxas e pernas volumosos. Muitas pacientes usam numerações diferentes na parte de cima e na de baixo.
- Simetria: os dois lados do corpo são afetados de forma parecida.
- Pés e mãos poupados: o volume para antes do tornozelo e do punho.
- Dor e sensibilidade: dor ao toque ou à pressão, sensação de peso e cansaço nas pernas, que pioram ao fim do dia e no calor.
- Hematomas fáceis: manchas roxas após traumas mínimos, às vezes sem lembrança da batida.
- Nódulos: à palpação, o tecido tem textura granulosa, como pequenas bolinhas sob a pele.
- Pouca resposta à dieta: o emagrecimento ocorre no tronco e no rosto, mas pouco nas áreas afetadas.
Nenhum sinal isolado fecha o diagnóstico. O que orienta o médico é o conjunto, a idade de início e a evolução ao longo dos anos.
O que é o sinal do manguito?
É um dos achados mais característicos. A gordura desce pela perna e termina de forma abrupta logo acima do tornozelo, formando uma espécie de anel de tecido, enquanto o pé permanece fino. Nos braços, o mesmo degrau pode aparecer acima do punho, com a mão poupada. Essa demarcação é pouco comum na obesidade, em que a gordura se distribui de forma contínua, e ajuda a separar o lipedema do linfedema, que costuma envolver o dorso do pé.
Como diferenciar lipedema de celulite?
A celulite é uma alteração da superfície da pele, com aspecto de casca de laranja, presente na grande maioria das mulheres depois da puberdade. Ela resulta da forma como faixas fibrosas prendem a pele às camadas mais profundas e não causa dor. Uma mulher magra, sem qualquer doença, pode ter celulite evidente.
O lipedema pode vir acompanhado de celulite, mas o problema está no volume e na qualidade do tecido abaixo dela. Há desproporção, dor à palpação, nódulos e hematomas. Ter celulite, portanto, não significa ter lipedema, e a ausência de celulite não exclui a doença.
É lipedema ou retenção de líquido?
A retenção de líquido, que os médicos chamam de edema, é água acumulada fora dos vasos. Ela varia ao longo do dia, piora com longos períodos em pé ou no calor e melhora com repouso e pernas elevadas. Ao pressionar a pele com o dedo por alguns segundos, fica uma depressão que demora a desaparecer. Costuma envolver tornozelos e pés e pode ter causas diversas, como insuficiência venosa, efeito de medicamentos e doenças do rim, do coração, do fígado ou da tireoide.
No lipedema inicial, o volume é sobretudo de gordura. Ele não desaparece pela manhã e a depressão à pressão é discreta ou ausente. Com o passar dos anos, porém, pode surgir um componente de edema associado, o que torna a distinção mais difícil e reforça a importância do exame clínico.
Como saber se é lipedema ou obesidade?
Na obesidade, a gordura tende a se distribuir pelo corpo todo, incluindo abdome, rosto, mãos e pés. Ela não dói ao toque e, com déficit calórico sustentado, diminui de forma relativamente proporcional. No lipedema, ao emagrecer, a pessoa perde primeiro no tronco e no rosto, enquanto as pernas mudam pouco, o que acentua a desproporção.
As duas condições coexistem com frequência. Muitas mulheres com lipedema também têm obesidade, e o excesso de peso agrava a dor, a sobrecarga das articulações e a dificuldade de locomoção. O índice de massa corporal não serve para separar uma da outra: ele pode ser normal no lipedema e não informa onde a gordura está.
Qual a diferença entre lipedema e linfedema?
O linfedema é uma falha na drenagem linfática. Pode ser primário, por alteração no desenvolvimento dos vasos linfáticos, ou secundário, após cirurgias, radioterapia, infecções ou traumas. O líquido acumulado é rico em proteínas, a pele engrossa com o tempo e infecções como a erisipela são mais frequentes.
| Característica | Lipedema | Linfedema | Obesidade |
|---|---|---|---|
| Quem é afetado | Quase só mulheres | Ambos os sexos | Ambos os sexos |
| Distribuição | Simétrica, pernas e às vezes braços | Muitas vezes assimétrica ou de um lado só | Generalizada |
| Pés e mãos | Poupados | Frequentemente envolvidos | Podem estar envolvidos |
| Dor ao toque e hematomas | Comuns | Pouco comuns | Pouco comuns |
| Sinal de Stemmer | Negativo | Positivo | Negativo |
| Resposta à dieta nas pernas | Pequena | Pequena | Proporcional |
O sinal de Stemmer é a dificuldade de pinçar a pele na base do segundo dedo do pé, típica do linfedema. Em fases avançadas do lipedema, o sistema linfático pode ficar sobrecarregado e surgir o chamado lipolinfedema, quando as duas condições se sobrepõem.
Quais são os estágios do lipedema?
A classificação mais usada descreve a aparência da pele e do tecido:
- Estágio 1: pele lisa, tecido sob a pele aumentado, com nódulos pequenos perceptíveis à palpação.
- Estágio 2: superfície irregular, com ondulações e nódulos maiores.
- Estágio 3: grandes lóbulos de tecido que deformam o contorno, sobretudo em coxas e joelhos, e podem prejudicar a marcha.
- Estágio 4: usado em algumas classificações para o lipedema associado a linfedema.
Existe ainda uma classificação por tipos, conforme a região acometida, como quadris e nádegas, coxas até os joelhos, pernas até os tornozelos ou braços. Um ponto importante é que o estágio não mede a intensidade da dor. Uma mulher em estágio 1 pode ter muita dor, e outra em estágio 3 pode ter pouca.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico. O médico reconstrói a história, com idade de início, relação com fases hormonais, casos na família, tentativas de emagrecimento, dor e hematomas, e examina o corpo todo, com inspeção e palpação. Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme o lipedema.
Os exames servem para excluir outras causas e avaliar condições associadas. Costumam entrar na investigação a função da tireoide, a glicemia e a insulina, a função renal e hepática e outros marcadores conforme o caso. O ultrassom com Doppler avalia as veias, e a linfocintilografia é reservada para quando se suspeita de linfedema. A bioimpedância ajuda a acompanhar a composição corporal ao longo do tempo, mas não diagnostica a doença. Entre os diagnósticos diferenciais estão hipotireoidismo, síndrome de Cushing, lipodistrofias e lipomatoses.
O que muda com a CID-11?
Na CID-10 não havia código próprio, e o lipedema era muitas vezes registrado de forma imprecisa. A CID-11, em vigor desde 2022, passou a reconhecê-lo como entidade própria, com o código EF02.2. Isso facilita o registro, a pesquisa e a comunicação entre profissionais. O diagnóstico, no entanto, continua sendo feito na consulta.
Quando procurar avaliação médica
Vale procurar um médico familiarizado com a doença se você reconhece estes sinais:
- Pernas ou braços desproporcionais ao tronco, de forma simétrica, com pés e mãos poupados.
- Dor ao toque, sensação de peso ou hematomas frequentes sem motivo claro.
- Emagrecimento que reduz o tronco e o rosto, mas quase não muda as pernas.
- Início ou piora na puberdade, na gestação, na perimenopausa ou com uso de hormônios.
- Mãe, irmã ou avó com quadro parecido.
Alguns sinais pedem avaliação mais rápida porque podem indicar outra condição: inchaço que passa a envolver os pés, diferença marcada entre uma perna e outra, vermelhidão, calor e endurecimento da pele. Inchaço súbito e doloroso em uma única perna deve ser avaliado com urgência, pela possibilidade de trombose.
Na MedInfuse, a avaliação começa por consulta detalhada e exame físico de todo o corpo, seguidos de painel laboratorial para excluir outras causas e de bioimpedância para registrar a composição corporal de partida. Com o diagnóstico e o estágio definidos, o médico propõe um plano de acompanhamento individual, com reavaliações periódicas de dor, volume e sintomas.
Ter um nome para o que se sente costuma ser um alívio. A partir dele, é possível entender o que o tratamento pode oferecer, tema do artigo Lipedema tem cura?.
