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Saúde masculina

Testosterona baixa no homem: sintomas, diagnóstico correto e o que pesar antes da reposição

Testosterona baixa, ou hipogonadismo masculino, é diagnosticada quando há sintomas compatíveis e dosagens matinais em jejum confirmadamente baixas, em pelo menos duas coletas. Antes de repor, é preciso investigar a causa, porque obesidade, apneia do sono e medicamentos são frequentes e tratáveis. A reposição tem benefícios e riscos e exige acompanhamento.

A testosterona influencia muito mais do que a libido. Ela participa da manutenção da massa muscular e óssea, da produção de glóbulos vermelhos, da distribuição de gordura, do humor e da energia. Com a idade, os níveis tendem a cair de forma lenta, mas essa queda é muito menor do que a propaganda sugere, e boa parte dos homens com testosterona baixa tem outra causa por trás. Por isso o diagnóstico precisa ser cuidadoso, e o tratamento começa pela pergunta: por que está baixa?

Quais são os sintomas de testosterona baixa?

Os sintomas mais específicos são os sexuais: redução do desejo, menos ereções espontâneas, sobretudo as matinais, e dificuldade de ereção. Também sugerem o quadro a perda de pelos corporais, o aumento das mamas (ginecomastia), a redução do volume dos testículos e fraturas com traumas pequenos.

Há sintomas menos específicos, que aparecem com frequência mas também têm muitas outras causas: cansaço, desânimo, dificuldade de concentração, perda de força e de massa muscular, aumento da gordura abdominal e sono ruim. Quando o homem tem apenas esses sintomas, sem queixas sexuais, a chance de a testosterona ser a explicação principal é menor, e vale investigar também tireoide, anemia, vitamina D e B12, depressão e apneia do sono.

Como diagnosticar a testosterona baixa corretamente?

A diretriz da Endocrine Society, publicada em 2018, e a da Associação Americana de Urologia, do mesmo ano, convergem nos pontos essenciais. O diagnóstico exige sintomas compatíveis e testosterona total baixa de forma consistente.

  • Coleta pela manhã e em jejum. A testosterona tem ritmo diário, com pico no início da manhã, e cai depois de refeições com glicose. Uma coleta à tarde pode dar um valor falsamente baixo.
  • Duas dosagens. Um resultado baixo precisa ser repetido em outro dia antes de qualquer conclusão, porque a variação entre coletas é grande.
  • Testosterona livre e SHBG. A maior parte da testosterona circula ligada a uma proteína chamada SHBG. Obesidade, resistência à insulina e hipotireoidismo reduzem a SHBG, e a testosterona total pode parecer baixa enquanto a fração livre, que é a ativa, está normal. Idade, hipertireoidismo e doença hepática fazem o contrário. Quando a total está perto do limite ou a SHBG está alterada, a testosterona livre calculada ou medida por diálise de equilíbrio resolve a dúvida.
  • LH e FSH. São os hormônios da hipófise que comandam o testículo. Se estão altos, o problema é no próprio testículo (hipogonadismo primário). Se estão baixos ou normais diante de testosterona baixa, o problema é central (hipogonadismo secundário), e a investigação inclui prolactina, ferritina e, em alguns casos, ressonância da hipófise.

Quanto aos números, o estudo de Travison e colaboradores, de 2017, harmonizou valores de quatro grandes coortes e propôs cerca de 264 ng/dL como limite inferior da normalidade em homens jovens, adotado pela Endocrine Society. A Associação Americana de Urologia usa 300 ng/dL como corte prático. Os valores de cada laboratório devem ser interpretados à luz do método utilizado.

Quais causas de testosterona baixa têm tratamento?

Muitas, e algumas são mais comuns do que a deficiência primária do testículo.

CausaComo reduz a testosterona
Obesidade e resistência à insulinaO tecido adiposo converte testosterona em estradiol, e a inflamação e a insulina alta reduzem o estímulo da hipófise ao testículo
Apneia e privação de sonoGrande parte da produção diária acontece durante o sono, e noites curtas ou fragmentadas reduzem os níveis
MedicamentosOpioides, corticoides em uso prolongado e alguns psicotrópicos suprimem o eixo hormonal
Uso prévio de anabolizantesO eixo fica suprimido por meses ou anos depois da suspensão
Doenças agudas e crônicasInfecções, insuficiência renal, doença hepática e diabetes descompensado reduzem a produção
Prolactina alta e excesso de ferroInterferem no funcionamento da hipófise e exigem investigação específica

Na obesidade, a relação é de mão dupla: testosterona baixa favorece gordura abdominal, e a gordura abdominal reduz a testosterona. Perder peso, tratar a resistência à insulina e a apneia do sono costuma elevar os níveis de forma natural, e em vários homens isso é suficiente.

Quais são os riscos da reposição de testosterona?

Quando bem indicada, a reposição melhora a função sexual, a densidade óssea, a massa muscular e o humor em homens com deficiência confirmada. Mas tem efeitos adversos conhecidos, que exigem monitoramento.

O mais frequente é o aumento do hematócrito, isto é, da concentração de glóbulos vermelhos, que torna o sangue mais espesso. A Endocrine Society recomenda não iniciar a reposição com hematócrito acima de 50% e intervir se ultrapassar 54%. Outros efeitos incluem acne, retenção de líquidos, aumento das mamas e piora de apneia não tratada. O PSA e o exame da próstata são acompanhados, e a reposição é contraindicada em homens com câncer de próstata ou de mama, em quem planeja ter filhos em breve, e nos meses seguintes a um infarto ou AVC.

O uso estético é outra questão. Doses acima das fisiológicas para ganho de massa muscular ou desempenho expõem a riscos cardiovasculares, hepáticos, psiquiátricos e de infertilidade sem indicação médica. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora de desempenho esportivo. Para quem busca força e massa muscular, o caminho tem base em treino, nutrição e investigação de perda de massa muscular.

O que o estudo TRAVERSE mostrou?

Durante anos, a segurança cardiovascular da testosterona foi uma dúvida aberta, alimentada por estudos observacionais contraditórios. O TRAVERSE, publicado por Lincoff e colaboradores no New England Journal of Medicine em 2023, foi o primeiro grande ensaio clínico desenhado para responder a ela. Incluiu 5.246 homens de 45 a 80 anos com hipogonadismo e doença cardiovascular ou alto risco cardiovascular, tratados com gel de testosterona ou placebo.

A taxa de infarto, AVC e morte cardiovascular foi semelhante nos dois grupos, cerca de 7% em cada um, e o estudo atendeu ao critério estatístico de não inferioridade: a testosterona não aumentou esse risco além da margem definida previamente. Houve, porém, mais fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda no grupo tratado. O estudo tem limitações: muitos participantes abandonaram o tratamento, o seguimento médio foi de menos de dois anos e a reposição foi feita apenas com gel. Os resultados tranquilizam quanto ao infarto em homens com indicação correta, mas não autorizam o uso sem critério.

Reposição de testosterona e fertilidade

A testosterona aplicada de fora sinaliza para a hipófise que há hormônio suficiente. A produção de LH e FSH cai, a testosterona dentro do testículo diminui e a produção de espermatozoides pode reduzir até a ausência completa. A recuperação após a suspensão é comum, mas pode demorar muitos meses. Homens que desejam ter filhos precisam de outras estratégias, que estimulam a produção do próprio testículo, e essa conversa deve acontecer antes de iniciar qualquer tratamento.

Quando procurar avaliação médica

Procure avaliação se houver queda persistente do desejo sexual, redução das ereções matinais, disfunção erétil, aumento das mamas, perda de pelos, testículos menores, fraturas com traumas leves, ou se um exame mostrou testosterona baixa. Também merecem avaliação homens com obesidade, diabetes ou ronco intenso com sonolência diurna, e quem usou anabolizantes e não se recuperou depois de parar.

Na MedInfuse, a investigação começa por uma consulta clínica detalhada e um painel laboratorial amplo, com testosterona total e livre, SHBG, LH, FSH, prolactina, hematócrito e PSA quando indicado, colhidos pela manhã e repetidos quando necessário. A bioimpedância avalia a composição corporal. Quando há indicação de reposição com hormônios homólogos (bioidênticos), o plano de acompanhamento inclui reavaliações periódicas dos sintomas e dos exames de segurança, e as causas tratáveis são abordadas em paralelo.

Perguntas frequentes

Os valores de referência variam entre laboratórios. A Endocrine Society adota como limite inferior, em homens jovens saudáveis, cerca de 264 ng/dL para a testosterona total medida por métodos padronizados, e a Associação Americana de Urologia usa 300 ng/dL como referência prática. Um valor isolado abaixo disso não fecha o diagnóstico sem sintomas e sem confirmação em nova coleta matinal.

O estudo TRAVERSE, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, comparou gel de testosterona com placebo em homens com hipogonadismo e risco cardiovascular elevado e não encontrou aumento de eventos cardiovasculares maiores. Houve, porém, mais casos de fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda no grupo tratado, o que reforça a necessidade de indicação correta e acompanhamento.

A testosterona aplicada de fora suprime os hormônios da hipófise que estimulam o testículo, e a produção de espermatozoides pode cair a ponto de desaparecer. Esse efeito costuma ser reversível após a suspensão, mas a recuperação pode levar meses e não é garantida. Homens que desejam ter filhos precisam discutir isso antes de qualquer tratamento.

Em muitos casos, sim. Quando a causa é obesidade, apneia do sono, uso de certos medicamentos ou doença aguda, tratar o fator de base costuma elevar a testosterona. A perda de peso, em particular, se associa a aumento dos níveis em homens com obesidade.

Saiba como cuidamos disso na clínica: Reposição hormonal masculina e Sarcopenia.

Leia também

Referências

  1. Bhasin S et al. Testosterone therapy in men with hypogonadism: an Endocrine Society clinical practice guideline. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2018;103(5):1715-1744
  2. Mulhall JP et al. Evaluation and management of testosterone deficiency: AUA guideline. Journal of Urology, 2018;200(2):423-432
  3. Lincoff AM et al. Cardiovascular safety of testosterone-replacement therapy (TRAVERSE). New England Journal of Medicine, 2023;389(2):107-117
  4. Travison TG et al. Harmonized reference ranges for circulating testosterone levels in men of four cohort studies in the United States and Europe. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2017;102(4):1161-1173
  5. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023, sobre terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Não inicie, altere ou interrompa tratamentos sem orientação do seu médico.

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